Você escolhe suas escolhas?
ou simplesmente aceitas as escolhas feitas pra você?
O conceito de liberdade variou muito ao longo dos anos. Na verdade varia imensamente a depender de quando e de quem o cunhou. Thomas Hobbes assim o definiu em Leviatã:
"Um homem livre é aquele que, naquelas coisas que é capaz de fazer por sua própria força e espírito, não é impedido de fazer o que tem vontade.
Pergunto: hoje você sabe do que exatamente tem vontade? Será que é você quem faz as próprias escolhas?
O conceito que Hobbes esboçou no século XVII - uma mera ausência de impedimentos externos para fazermos nossa vontade - parece hoje pertencer a uma seção esquecida em um museu contemporâneo. Naquele tempo, contudo, presumo que ele pensasse em correntes físicas, leis tirânicas. Dificilmente o autor imaginaria que o maior obstáculo a nossa vontade seria a gentileza de uma interface que adivinha o que queremos.
Já há um tempo percebe-se com mais e mais nitidez como nosso hábito de escolher coisas - músicas, filmes, livros, compras - vem sendo gradualmente terceirizado para sistemas automáticos.
Existe uma espécie de entidade oculta que todo mundo sabe o nome mas ninguém entende exatamente como funciona que é o algoritmo.
A palavra algoritmo não é exclusiva da computação. Na verdade, foi apropriada por ela. Nasceu na matemática como uma espécie de descrição de modelos sistemáticos para resolução de equações e por vários séculos foi apenas isso mesmo. Mas quando os primeiros desenvolvedores de sistemas - em nível ainda conceitual, abstrato - perceberam o quão matemática a computação é, foi inevitável a importação desse e de vários outros termos.
Hoje nem sempre somos nós quem escolhemos nossas escolhas.
Pra ser honesto, não sei se podemos falar em liberdade de escolha hoje na internet. Todo aplicativo ou site popular parece ter se transformado em um labirinto de paredes invisíveis onde você vai batendo a cabeça e tateando paredes até ser levado sabe-Deus-para-onde. É mesmo possível dizer que desse labirinto não há escapatória. O objetivo do algoritmo é te deixar lá o maior tempo possível.
Quando entramos hoje em uma plataforma de streaming como o YouTube por exemplo, temos a ilusão de possuirmos um mundo infinito de possibilidades de vídeos à nossa disposição. Ou você já não ouviu que "se pode aprender tudo pela internet hoje em dia"? Tenho certeza que sim.
Entretanto é preciso dizer que nesse suposto acervo interminável de vídeos que a plataforma nos oferece, a ordem dos vídeos já foi rigorosamente orquestrada para nos prender ali. Nós não escolhemos o que queremos ver dentre todos os vídeos, escolhemos o que queremos ver dentro das possibilidades ofertadas pela máquina.
O principal problema da otimização por algoritimos é a aversão que essas ferramentas têm ao atrito. Para elas, a hesitação, a troca de vídeo ou mesmo tirar o olho da tela por alguns segundos são falhas que precisam ser corrigidas a todo custo. E elas medem tudo: o que você assiste, por quanto tempo, quantas vezes, se olha para tela ou não, com qual velocidade desliza seus dedos pelo aplicativo e até mesmo em que altura seu volume está ao ver determinado conteúdo.
Há quem argumente que o algoritmo é um tipo de personalização, que indiretamente ele nada mais é do que sua íntima preferência. Isso não poderia estar mais longe da verdade.
O que chamam hoje de personalização não passa de um engodo. O algoritmo é um mecanismo de engenharia comportamental cuidadosamente arquitetado por quem entende.
Não é estranho pensar que noventa por cento das coisas que todo mundo vê no YouTube foi simplesmente programado por algumas poucas dezenas de jovens em salas agradavelmente resfriadas no Vale do Silício?
Cito Leviatã novamente:
"Tão fáceis são os homens de serem levados a acreditar em qualquer coisa, por aqueles que obtiveram crédito junto a eles."
Hobbes imaginava que o perigo viria de quem nos impedisse de agir, mas ele próprio avisou que basta alguém ganhar nosso crédito com um pouco de gentileza para poder levar-nos aonde quiser. Com algumas recomendações certeiras e alguns vídeos grátis, talvez?
Da próxima vez que abrir um aplicativo e se perceber perdido por lá, tente lembrar-se do que você ia procurar antes de abrir. Se não se recordar, talvez a resposta à pergunta do começo do texto já esteja dada.
Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
