Roupas-conforto
e meu muito obrigado à Balenciaga!
Inúmeras concessões e ocultos contratos sociais são necessários para que uma sociedade funcione bem.
O ser humano parece estar sempre buscando maneiras de manter o caos do mundo do lado de fora do seu espaço pessoal. Fazemos isso através da criação de leis, da construção de muros e mesmo simplesmente pelo fato de nos vestirmos. Aliás, se o hábito de vestir-se remonta a Adão e Eva, esse é talvez a mais antiga forma de proteção contra o caos.
Entretanto, não basta estar vestido, afinal o que vestimos também importa.
Não quero fazer aqui uma revisão sobre moda - quem sou eu para isso -, mas nos últimos anos percebi que a Balenciaga começou a oferecer itens de vestuário já destruídos, rasgados e encardidos. Não que isso seja propriamente dito inédito no mundo da moda, mas parece ter se tornado uma espécie de identidade para a marca.
Dos moletons que saem levemente rasgados da fábrica às bolsas que imitam sacos de lixo, a Balenciaga vem tornando-se mais e mais criativa. A reação, como esperada, foi majoritariamente jocosa. Mas contentar-se com o riso é perder perguntas como: qual o objetivo da marca com isso?; e por que o homem moderno aceita pagar caro por coisas velhas?
Ora, a civilização parece estar sempre igualmente preocupada em esconder o que apodrece. Fazemos isso ao jogar fora comidas que venceram, ao desfazer-nos de roupas surradas e mesmo quando enterramos entes queridos.
Será que o objetivo do movimento não é justamente fazer-nos olhar para isso? Será que não é uma mera advertência moral de que tudo que acumulamos irá se desfazer e que nenhum refinado veludo nos protege disso?
A jaqueta destruída talvez seja um memento mori que se veste ante uma sociedade que supervaloriza o novo, o limpo e o impecável.
Mas não confundamos roupas velhas com humildade. Acho, inclusive, que o homem capaz de pagar dois mil euros em um sapato estragado é na verdade o mais refinado dos orgulhosos. Aquele que tenta comprar até a aparência da modéstia para exibi-la como sua.
Golda Meir teria dito: “Não se preocupe em ser humilde, você não é assim tão importante.”
Confesso, entretanto, que meio que apreciei a tendência. Vejo-a como uma oportunidade de vestir roupas antigas, vencidas, rasgadas. Aquelas roupas que, de tão confortáveis, temos pena de jogá-las fora mas que até então só podiam ser usadas quando dentro de casa - e sem a presença de visitas.
Hoje, volto a poder vesti-las com mais tranquilidade moral e livre do medo de julgamentos. Não as uso como conceituais, contudo. E sim, como testemunhas de tudo que vivi dentro delas.

Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
