Sobre o que realmente tem valor na vida
e como algumas histórias nos marcam para sempre.
Quem tem saúde deseja muitas coisas, mas quem não tem só deseja uma.
Uma das maiores dádivas que podemos ter é a liberdade de ter desejos quaisquer. Desejar uma casa maior, um carro novo. Desejar perder peso ou correr uma meia-maratona. Desejar um passeio em família ou uma simples casquinha de sorvete.
Certa vez atendi um paciente jovem de 18 anos com um quadro de leucemia recidivada mesmo após um transplante de medula óssea. O prognóstico era ruim. Foi admitido no setor de emergência do hospital onde não era permitida a permanência de acompanhantes mas havia um horário específico para boletim médico, às 16h00. Como o quadro dele era delicado, senti que realmente precisava conversar com a família e encontrar a melhor maneira de alinhar as expectativas prognósticas daquele caso. Entretanto nenhum familiar dele compareceu naquele horário.
Contudo, pouco antes do final do plantão, por volta de 18h40, fui avisado pela equipe que a familiar de um paciente desejava conversar comigo. Pelo avançar da hora - meu plantão terminaria às 19h00 -, dirigi-me à familiar imaginando que teria apenas um breve diálogo e logo voltaria para finalizar meus afazeres. Mas a familiar em questão era a mãe do dito paciente da leucemia.
Ela estava chorando quando a vi. E seu rosto exibia olheiras tão severas que denunciavam que as lágrimas não eram apenas de agora. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, inaugurou a conversa pedindo perdão por não ter vindo mais cedo, no horário do boletim médico. Disse que estava cuidando do marido com câncer de próstata e precisou levá-lo ao hospital. Difícil. "Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo."
Começamos pois a conversar e tentei inicialmente compreender melhor o quão informada ela estava sobre o quadro do filho para então explicar as atualizações do caso. Para minha surpresa, a mãe parecia já compreender muito bem sobre tudo que estava se passando. Sabia que o quadro era grave e sabia que as expectativas de melhora eram poucas.
Entretanto, ela não parecia particularmente interessada nas novas informações que eu pretendia fornecer. O que ela queria mesmo era que eu entregasse uma roupa ao filho dela. Sim, uma roupa. Ela me explicou que o rapaz era tímido demais para pedir sequer uma troca de roupa à equipe de enfermagem e por isso ela estava preocupada se ele ainda estaria ou não usando as mesmas vestes do dia anterior. Ele estava.
De suas mãos peguei uma sacola branca de um supermercado qualquer com algumas poucas roupas dentro. Pude identificar uma bermuda e uma regata.
Evidentemente, me estendi um pouco mais nesse diálogo pela óbvia demanda de acolhimento ante esse caso que até aqui já me parecia doloroso o suficiente.
Acontece que esse mesmo paciente, como expliquei no começo desse meu relato, havia passado há pouco por um transplante de medula óssea. Ao contrário do que comumente se vê na ficção, na vida real, um tratamento desses não raramente é difícil, com algumas intercorrências e nem sempre leva à cura da doença que indicou o procedimento.
Até aquele momento, durante toda a conversa com a mãe, ela manteve os olhos apenas lacrimejantes, mas ela chorou copiosamente quando contou sobre seu outro filho. Sobre como ele estava triste. Sobre como ela achava mesmo que estivesse deprimido. Resolvi entender melhor os detalhes.
O doador de medula para o paciente foi seu irmão mais novo. Catorze anos. Jovem, não? Já não parece difícil o suficiente para um adolescente dessa idade ter que passar pelos exames e procedimentos para doar uma possibilidade de cura para um amado irmão mais velho? O transplante foi feito com essa intenção, afinal.
O que deixava o garoto deprimido, entretanto, era um sentimento de culpa. Ele acreditava que seu sangue não foi bom o bastante para o irmão. Que a responsabilidade de o transplante não ter funcionado foi justamente dele.
Eu não sou exatamente uma pessoa emotiva, caros leitores. Costumo ter sucesso em manter certo distanciamento emocional e mesmo físico desse tipo de situação. Mas… O que sentir ao ouvir uma história dessas? Eu até hoje não sei. São tantas camadas de sofrimento que mesmo a mais miserável das almas também se padeceria.
Esse foi um daqueles dias que a gente chega em casa mas não desce do carro. Não mexe no telefone nem escuta música, apenas fica sentado lá contemplando a vida e a morte.
Voltei ao trabalho no dia seguinte. No mesmo setor da mesma emergência. O paciente não estava mais lá. Já havia subido para a enfermaria da especialidade após remanejamento de leitos. Pelo prontuário, a evolução do colega plantonista dizia que ele tinha passado a noite sem intercorrências e sem grandes mudanças no quadro clínico.
Resolvi subir para vê-lo. Ele estava usando as roupas novas.
O semblante era o mesmo de sempre: emagrecido, pálido, respirando com alguma dificuldade. Um olhar vago, perdido pelo quarto. Como se, ao não poder ver sua própria melhora, não lhe importasse ver mais nada. Decidi não incomodá-lo e apenas o observei da porta por alguns instantes.
Na saída do setor encontrei sua mãe. Estava com um humor melhor e comentou sobre a muda de roupas. Conversamos brevemente e ao perceber que eu estava de saída, disse novamente um muito obrigado por eu ter conseguido um leito de enfermaria para ele e depois disso me abraçou. Abraçou forte. Por dois ou três segundos, talvez. Como se realmente estivesse muito grata.
Não soube o que dizer. Sinto que no plantão anterior cuidei dele como cuidaria de qualquer outro paciente. Pedi o leito de enfermaria dele exatamente da mesma maneira como havia pedido vários outros antes e depois dele. E ainda assim, para ela, isso parecia ter toda a importância do mundo.
É duro pensar como a cura nem parecia mais um objetivo para aquela mãe. Bastava uma roupa limpa. Um quarto maior. Um horário de visita estendido.
Não sei o que houve com o rapaz depois disso. Acabei mudando de setor e preferi não investigar mais a fundo porque internamente tinha a sensação de saber exatamente qual seria o desfecho daquela história.
Curioso como esse tipo de coisa nos marca, não? Eu não sei o nome e nem nunca vi o irmão daquele paciente e entretanto já rezei tantas e tantas vezes por ele, para que encontrasse paz e se livrasse daquela culpa.
Repito: uma das maiores dádivas que podemos ter é a liberdade de ter desejos.
Obs.: Alguns detalhes na história como idades e diagnóstico foram sutilmente alterados para preservar a identidade da família.
Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
