Sobre profetas em sua terra natal
e a honra que não encontramos em casa.
Acreditando no conteúdo ou não, é inegável a quantidade de ensinamentos e reflexões que a Bíblia nos traz. Em Mateus 13:57 temos:
"(…) Jesus, porém, lhes disse: — um profeta tem honra em todos os lugares, exceto na sua terra e na sua própria casa."

Problema antigo para o qual ainda não se tem solução. No contexto, Jesus volta a Nazaré, ensina na sinagoga e percebe que não encontra ali a admiração que merecia. Os conterrâneos aparentemente o viam apenas como um carpinteiro, filho de pais que eles próprios conheciam. O que havia, na verdade, era o escândalo, a surpresa.
Existem, a meu ver, diversos níveis de humilhação. Você pode ser humilhado por alguém que sequer conhece e sair ileso do processo. Você pode ser humilhado por alguém que conhece e se ferir. E você também pode ser humilhado por alguém que ama e ter que lutar para se recuperar daquilo. E é justamente de quem está mais perto - e cuja opinião mais importa - que menos costumamos receber reconhecimento.
Quem conhece um sujeito falha em vê-lo como uma obra terminada, sempre pensa no continuum que aquela vida foi. Vê o processo, os erros. Vê um atraso: uma versão do sujeito que pode nem existir mais. Por outro lado, a um estranho, qualquer informação que se obtém sobre alguém é inédita.
Hegel explora um velho ditado francês de que nenhum homem é herói para seu criado de quarto, convidando-nos à interpretação de que isso ocorre não porque o herói não seja herói, mas porque o criado é criado. Aquele que vê alguém acordar, reclamar, comer, dormir conhece mais intensamente as partes banais daquela pessoa. A intimidade revela o ordinário e esconde o extraordinário.
Há também a explicação da inveja mas que nem sempre é a mais adequada. Diz-se que ninguém inveja um astronauta americano, mas inveja-se o vizinho que trocou de carro. A explicação se embasa no fato de que admirar a conquista de alguém próximo seria admitir a própria falha em conquistar aquela mesma coisa, haja vista o fato de terem vindo do mesmo lugar. Um raciocínio mais preguiçoso, confesso, ou ao menos raso demais.
Talvez a explicação mais profunda esteja em outro lugar, já que podemos ser reconhecidos de diferentes maneiras.
Há quem nos reconheça simplesmente por existirmos e isso muitas vezes é chamado de amor. De pai, de mãe, de irmão. E há também quem nos reconheça pelos nossos feitos. De certa maneira, faz sentido que seu pai ignore completamente seu currículo, não? No fim, o amor dele independe daquilo: saem as conquistas acadêmicas, sobra você.
Isso não é uma indulgência universal a todos os não-apoiadores por aí. Afinal de contas, a pessoa que não se impressiona com o que fazemos, mas se alegra com nossas conquistas, é bastante diferente daquela que tenta menosprezar cada passo, cada esforço. No primeiro caso, talvez seja apenas um idioma diferente falado naquela relação, no segundo, a Nazaré de Jesus se repete.
E aí o próprio Evangelho guarda um aviso no versículo subsequente, quando diz:
E ali não fez muitos milagres, por causa da incredulidade deles.
Quem não consegue ver o outro perde não apenas a chance de honrá-lo, mas também de desfrutar quem ele poderia ter sido ali.
Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
