O ciclo da vida
explicado por um peixe.
A ciclicidade da vida pode ser interpretada de várias formas, vista sob várias óticas diferentes. As coisas surgem de algo, se tornam algo e comumente decaem em algo que eventualmente serve de substrato ao surgimento de uma outra coisa.
Hoje quero falar sobre tilápias.
Para quem não sabe, tilápias são peixes de água doce muito populares não só nos mais longínquos rincões Brasil afora, como também em boa parte dos restaurantes típicos de nosso país.
Quando pedimos um peixe em determinado restaurante, vemos apenas o filé do animal chegar até nós já limpo, temperado, preparado e - se tudo der certo - quentinho. Mas já parou pra pensar de onde ele - e qualquer outra coisa - vem?
Eu conto.
Por vezes, pesquei tilápias. Tudo começa com a seleção de uma boa isca, uma boa vara e um bom local de pesca. Uma vez fisgado o peixe, tira-se o animal da água apenas para devolvê-lo a ela logo em seguida, agora porém dentro de uma armadilha inescapável chamada samburá ou balaio, para manter o peixe fresco.
Findada a pescaria, abate-se o peixe e parte-se para a limpeza. Tudo se dá, como se pode imaginar, de forma visceral. A tilápia particularmente tem uma crista de espinhos que pode ferir a mão, por isso, antes de tudo, cortam-se os espinhos. Só então, com uma faca fileteira (curta e de lâmina fina), abre-se a barriga do animal. Com os dedos, retira-se toda entranha que ali houver enquanto lava-se a carcaça do animal em água corrente. As vísceras e subprodutos com o tempo servirão de adubo ou alimento para outras formas de vida.
Feito isso, é hora de decapitar o peixe e efetivamente tirar o filé que é um processo difícil de descrever propriamente pela complexidade de movimentos manuais que envolve.
Por último, o peixe é temperado, empanado e jogado em óleo quente. Quando crocante, retira-se da panela e aí vem o repouso em papel absorvente - para retirar o excesso de gordura - até que alguém finalmente o coma.
Cruel demais? Estranho pensar em como tratamos seres ditos inferiores, não? Partimos do pressuposto que animais não racionalizam sensações e não têm sentimentos, mas será que podemos estar errados sobre isso? Se em vez de um humano descrevendo o processo de preparo de um peixe, fosse um titã descrevendo o processo de preparo de um humano, ainda pensaríamos da mesma forma?
Ainda que possa parecer, não se trata de um argumento a favor de qualquer dieta restritiva. O sofrimento, afinal, existe e é parte intrínseca desde mundo, entremeia tudo que conhecemos e perpetua-se pela nossa história desde sempre e presumidamente para sempre.
Acho que o pensamento vem, propriamente, para entender que cada coisa que comemos não é simplesmente um prato de nome chique, é uma ex-vida, algo que existia e muito em breve não existirá mais mas que de alguma forma voltará a existir no futuro.
Tudo significa algo, não?

Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
