Quem somos nós?
e porque todo mundo é diferente e ainda assim muita gente é parecida?
É impressionante como a mente humana parece encontrar certo conforto na criação de grandes classificações e no agrupamento de coisas, pessoas, comportamentos. É como se fosse mais fácil para nós termos as coisas já categorizadas em nossa mente antes de fazermos qualquer coisa no mundo real. Grandes generalizações parecem ser um hobby humano.
Milan Kundera diz o seguinte em A Insustentável Leveza do Ser:
O que realmente agrupa a humanidade são as vocações: um francês é muito diferente de qualquer outro (francês), mas todos os atores são mais ou menos iguais. A unicidade do eu se esconde justamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar o que é idêntico em todos os seres, o que lhes é comum.
Analisando a segunda frase: o que torna cada ser humano único?
Proponho um exercício mental. Imagine que eu descreva a seguinte pessoa única: Fulano de Tal, nascido em 27 de agosto de 1985, no Rio de Janeiro.
Essa única descrição torna-o único? Por certo que não. Nada impede que exista outro Sr. Fulano de Tal nascido no mesmo local, na mesma data.
E esse raciocínio é verdadeiro mesmo para não-importa-quantas-características adicionemos à biografia do Sr. Fulano. Outra pessoa pode nascer de pais com mesmo nome, pode ter características físicas (descritíveis) idênticas, pode ter nascido no exato mesmo horário, estudado na mesma escola, escolhido a mesma profissão, se casado com uma pessoa de mesmo nome e batizado os filhos com nomes igualmente idênticos.
É verdade que a cada característica isso ficaria mais e mais improvável, mas não necessariamente impossível. A não ser que estejamos falando sobre coisas fisicamente únicas - como a impressão digital ou formato da íris -, nosso exercício descritivo pode ser simplesmente infinito e ainda assim falhar em especificar necessariamente uma única pessoa.
Todas as características, portanto, que sejam imagináveis parecem ser absolutamente insuficientes para realmente individualizar um sujeito. Mas e as coisas inimagináveis?
Exploremos aqui as possibilidades de significado dessa palavra.
Imaginar é recombinar coisas conhecidas na criação de outras, possíveis ou não. Podemos imaginar uma fusão entre um cavalo e um homem e chamá-lo de centauro, mas não podemos imaginar uma cor que nunca vimos. A imaginação que trabalha com matéria-prima comum só pode imaginar o que é comum.
Nesse sentido, as coisas inimagináveis que individualizariam qualquer pessoa são aquelas que não podemos conhecer sobre elas. A saber, sobretudo, as experiências pessoais.
No livro, o autor usa essa palavra destacando que o personagem principal conseguia prever como determinada pessoa falaria, se vestiria ou se comportaria, mas não podia imaginar o que cada pessoa revelaria verdadeiramente em sua intimidade. O inimaginável nessa leitura não estaria necessariamente em um local inacessível, mas em algo que jamais podia ser previsto por inferência, apenas pelo conhecimento direto quando a outra pessoa o revelasse.
Ora, e isso não faz todo o sentido? Ao investigar a vida de qualquer pessoa, podemos descobrir inúmeras informações concretas e relevantes sobre ela, mas podemos apenas inferir - portanto, com incerteza - o que essa pessoa pensa, sente ou confabula em seu âmago.
Isso porque a individualidade do ser reside justamente nas coisas que apenas ele faz e nada é mais exclusivo a alguém do que o seu próprio jeito. Em geral quando temos um pensamento não nos detemos tempo o suficiente para entender como ele vem, mas cada ideia que surge em nossa mente não está lá por acaso. Ela nasce, na verdade, de uma complexa - e inimaginável - troca de microinformações baseadas em contextos conscientes e inconscientes. Em última análise, cada vitória e cada derrota, cada alegria e cada trauma, são perpassados e revisitados toda vez que pensamos em algo.
Isso é único.
Ainda assim, contemplar a beleza dessa unicidade não quer dizer que categorizações sejam desnecessárias.
Voltemos agora à primeira frase. Um francês é muito diferente do outro, mas todos atores são mais ou menos parecidos.
Isso é verdade? Parece ser, mesmo que não saibamos explicar exatamente o porquê.
O ofício das pessoas contribui imensamente na maneira como elas se vestem, falam e se comportam. Inconscientemente - ou no mínimo de forma desperceptiva - advogados, por exemplo, tendem a comunicar-se de maneira mais formal. Tendem a aplicar em conversas do dia a dia palavras que talvez pertencessem mais a um processo jurídico do que qualquer outro lugar.
Ao pesquisar em um buscador qualquer algo como "foto de um escritor", vemos que apesar de vários resultados diferentes, as diferenças desses resultados costumam estar contidas dentro de um mesmo espectro, oscilando dentro de uma variabilidade pré-programada.
Por quê? Por que somos assim?
Talvez porque nossa profissão não seja simplesmente o que fazemos, mas também diante de quem fazemos. O ator trabalha para a plateia; o advogado para o juiz; o escritor para um leitor que ele quase nunca vê. Kundera, no mesmo livro, propõe uma categorização desses olhares.
Todos nós temos a necessidade de ser olhados e podemos ser divididos em quatro categorias: (1) a primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos; (2) a segunda são aqueles que não podem viver sem numerosos olhares de familiares e entes queridos; (3) a terceira são aqueles que tem a necessidade de viver sob o olhar do ser amado; (4) a quarta é aquela que vive do olhar imaginário dos ausentes, os sonhadores.
Apesar de parecer uma simplificação, aposto que ao ler as categorias você não apenas identificou aquela que mais faz parte como também pensou em um ou outro conhecido enquanto lia as demais, não?
Algumas pessoas buscam a admiração de olhares anônimos. Vestem-se e comportam-se de determinada maneira para serem percebidas por estranhos como tendo determinada personalidade. Essas pessoas, na verdade, estão sempre atuando. Tudo, externamente, é sempre uma performance: em seu íntimo podem pensar coisas absolutamente diferentes e ainda assim externalizar padrões de comportamento muito similares.
O anônimo só enxerga o tipo, nunca a pessoa. Ter o reconhecimento dele como objetivo é justamente despersonalizar-se e aceitar virar uma categoria. Pior: como ninguém em particular é importante, a aprovação nunca é definitiva.
Outras pessoas buscam aprovação da família. A aprovação daqueles que nos observam mesmo antes de nascermos. Um olhar que em teoria não precisamos sequer merecê-lo. Também é, infelizmente ou não, o mais difícil de mudar, já que a família continua vendo quem fomos e não quem nos tornamos. Santo de casa não faz milagre.
Em determinada medida, o olhar da família é um porto seguro. Muitos reis dedicaram suas vidas à construção de verdadeiras fortalezas para proteger não suas terras ou tesouros, mas sua linhagem. A família, na verdade, é o muro que isola o bárbaro caos do mundo e protege o chão que pisaremos em nosso desenvolvimento.
Há também quem precise de um único olhar. Sem dúvida, a categoria mais intensa mas também a mais frágil. Perigosa quando única e ainda assim absolutamente necessária porque o amado é o único que pode realmente testemunhar a intimidade, o único que se aproxima de conhecer o inimaginável.
E existe, finalmente, o grupo dos sonhadores: pessoas que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. Pessoas que, mesmo tendo um imenso universo físico, parecem mais felizes e confortáveis em universos imaginados. A aprovação que essas pessoas buscam dificilmente é nominável.
O olhar imaginário é, contudo, feito sob medida. É o único que tem o potencial - ao menos em uma mente sã - de nunca decepcionar. O risco é que nem toda mente é sã. Talvez poucas sejam. Além disso, como o "olhador" não existe, o sonhador pode passar a vida à espera de uma aprovação sem nunca sentir que verdadeiramente a recebeu.
Talvez o que torna as pessoas mais ou menos parecidas seja a combinação de algum background básico com exatamente quão inseridas em cada categoria elas estão.
Será que os atores não são todos mais ou menos parecidos apenas porque todos eles decidiram fazer da categoria um uma profissão? E os escritores? Imagino que todos nasçam na categoria quatro escrevendo para quem não existe ainda e, quando dão certo, os ausentes se tornam os anônimos da primeira categoria. Talvez se pareçam justamente por todos fazerem a mesma travessia.
Não sei ao certo. Difícil dizer.
As definições, por definição, são limitantes. Cercam conceitos com algumas poucas palavras e excluem várias outras que poderiam se aplicar em determinadas situações. Ainda assim, acho mesmo que não podemos pensar sem elas.
Para o imaginável, funcionam até que bem. Para o inimaginável, não há categoria que sirva.

Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
