Há que se ter coragem
afinal, o que você espera da vida?
Existem basicamente dois jeitos muito distintos entre si - opostos para ser bem sincero - de ver a vida. Na verdade, não exatamente a vida em si, mas as coisas que acontecem nela.
Desafio o leitor a pesquisar entre filósofos, escritores, artistas, músicos ou qualquer pessoa que se expresse de uma maneira ou de outra sobre esses tipos e verá, acredito piamente, que conseguirá enquadrar perfeitamente cada um deles em uma ou outra estirpe.
Algumas pessoas acreditam que o mundo lhes deve algo. Outras que não.
Essa é uma questão profunda, existencial, antiga. Talvez até mais relevante do que saber de onde viemos. Importa mais. Faz mais diferença na vida de cada um.
Não quero soar pessimista, longe disso. Mas saber de onde viemos pode não mudar absolutamente nada em nossa vida. Houve um big-bang? Fomos criados por Deus?
Embora a segunda opção pareça mais confortável e talvez até mesmo amorosa, dependendo da concepção de Deus a resposta pode ser tão pessimista quanto possível. Ora, Mainländer mesmo defendia em sua filosofia que Deus se matou ao criar o mundo e o fez - aqui em interpretação pessoal - por mero tédio e que hoje o que conhecemos como universo nada mais é do que a lenta desintegração desse ser supremo.
Contudo, a pergunta se as coisas boas são esperadas ou não faz toda diferença no modo como você encara a vida.
Algumas pessoas acreditam que o mundo lhes deve algo. Isso pode não ser explícito desta maneira, pode estar escondido no mais profundo inconsciente e ainda assim influenciar cada uma das opiniões e decisões daquela vida.
O sujeito acorda, levanta-se e reclama de alguma coisa. As costas doem e não deveriam doer. O trabalho é enfadonho e não deveria ser. Os filhos são chatos e não deveriam ser. O mundo está sempre em dívida, deixando a desejar. Não importa o que tenha, parece ser insuficiente, parece merecer mais.
Mas provoco: merecer por quê?
Em um mesmo mundo, várias pessoas simplesmente entendem que o mundo não lhes deve nada. A vida não lhes deve nada. É um pensamento difícil de ser masterizado e de certa forma agonizante, mas a mentalidade de que o que vier é lucro é poderosíssima.
Apesar do meu tom favorecer mais o segundo em detrimento do primeiro, haja vista que não sabemos propriamente quais são - ou deveriam ser - os desígnios do destino para conosco e o que há no além-realidade, ambas as mentalidades podem estar certas, podem ter a mesma chance de serem verdadeiras.
Pode ser que realmente nós mereçamos o mundo. Que tudo é para nós. Que todos nós devêssemos ter corpos perfeitos e mentes sãs. E casas confortáveis e carros novos. E famílias amorosas e empregos engrandecedores. Pode ser, que quando alguma dessas coisas não existe ou não acontece, sejamos vítimas de um desdém do destino. Temos o direito de reclamar dessas coisas, na expectativa de sermos ouvidos por esse ente misterioso - o dito destino - e ter nossos pedidos atendidos e nossa vida de bonança imediatamente restabelecida.
Por outro lado, a hipótese de que fomos trazidos por acaso de um plano anterior a uma realidade neutra, também existe. O mundo não é necessariamente hostil para nós, pelo contrário. O ser humano demonstra geração após geração ser absolutamente capaz de moldar a realidade aos seus desejos, desde a cessação do hábito caçador-coletor para domar não animais mas a terra para que ela nos desse exatamente o fruto que queríamos, até a compressão infinita do silício em chips capazes de pensar em nosso lugar. Isso não me parece uma realidade hostil.
A despeito disso, o mundo, nessa hipótese, não é obrigado a dar-nos nada. Nem o fruto da terra e nem o chip de silício. Nós é que os domamos.
Para muitas pessoas, a vida é muito difícil. Isso não é segredo. O verdadeiro segredo está em entender o porquê. Injustiça? Acaso? Mero esforço das gerações que as precederam? Não importa. O que importa é que na mente desse tipo de gente, nada é esperado do mundo. Achar dinheiro na rua é uma bênção do acaso. Poder tomar uma água fresca quando se está com sede, uma bondade do destino.
Qual te parece mais confortável?
Nenhuma das duas se for para ser bem sincero. A dor do mundo que vive em falta para com o sujeito incomoda, a dor de que nada é garantido e nada pode ser cobrado de ninguém, também.
Quem acha que o mundo lhe deve algo, quando sofre, tem a quem cobrar: o destino, o acaso, Deus. Quem, por sua vez, acha que o mundo não lhe deve nada, não tem pra quem apresentar a conta. Sofre, simplesmente. O que a pessoa faz com isso, entretanto, é o que verdadeiramente importa.
Viver sem esperar nada e ainda assim levantar no dia seguinte exige alguma coisa a mais. Coragem?
Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche diz o seguinte:
Os homens mais espirituais, pressupondo-se que sejam os mais corajosos, também experimentam as mais dolorosas tragédias, mas justamente por isso eles honram a vida, porque ela lhes opõe o seu máximo antagonismo.
Ora, se não é verdade. Me atrevo a revelar que em minha interpretação do filósofo, os ditos homens espirituais são homens que não apenas parecem não esperar nada do mundo mas também têm a consciência disso. Tiram, disso, a sua força para ser. Para tornar-se si próprio. E ainda assim o autor diz que esses são os que mais sofrem.
Sob qual ótica?
O sujeito pode muito bem passar por uma experiência aterrorizadora para a maioria dos outros seres humanos e simplesmente ter uma interpretação banal daquilo. Aconteceu porque tinha que acontecer. Reconfortante. Mas isso é coragem?
Tendemos muitas vezes a confundir coragem com vingança. Se o sofredor não armar imediatamente um plano para equalizar seu sofrimento, então ele é um covarde. Coragem é isso? Por certo que não.
Tampouco diria que coragem é a ausência do medo. E o homem espiritual não sente medo? Medo de perder alguém, medo da morte. Algum há de existir.
Mas aí entramos na interpretação semântica da frase. Nietzsche não diz que os mais espirituais são os mais corajosos, e sim que a frase só é válida se assim o forem! E existe um abismo entre tais conceitos.
E por que então experimentariam os maiores sofrimentos? Porque podem. Porque se não suportassem o desespero de inúmeras derrotas prévias pequenas, jamais suportariam o peso da derrota em questão. Desistiriam.
Será então, leitores, que não podemos para esse fim usar coragem como sinônimo de perseverança? Perseverança a despeito do sofrimento?
Dessa ideia derivamos também o seguinte pensamento: o sucesso pode, sim, vir ao acaso. Pode ser um prêmio de loteria. Mas em um mundo neutro não parece certo esperar por algo assim. Esse mesmo mundo, entretanto, prova-nos ao longo das eras que ele pode ser domado, mas para ser domado é preciso coragem. Não apenas para seguir em frente, mas seguir em frente sabendo que a próxima queda pode ser a pior, pode ser a mais dolorosa.
E ainda assim, seguir em frente.
Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.
