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Fracasso

e suas lições

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Você já teve a talvez infeliz experiência de martelar um prego? Digo talvez infeliz porque, a não ser que tenha uma mira impecável - o que não é meu caso -, provavelmente a experiência deixou marcas em você.

Acho curioso, porém, como nosso foco fica no objetivo daquela atividade e não no meio que nos leva a executá-la.

Quando alguém "prega" algo, o objetivo é inserir o prego dentro de alguma outra coisa - a madeira, por exemplo. Como muito bem notou Heidegger, a ferramenta, no caso o martelo, é quase sempre esquecida. Torna-se mesmo algo próximo a uma extensão de nossa própria mão.

Se o martelo quebrar ou se estiver parado em algum lugar, sendo inútil, aí sim ele é notado. Suas imperfeições, sua sujeira, seu "feísmo" que tira a beleza de alguma bancada qualquer.

Boa parte da vida corre desse jeito. Não reparamos no peso do corpo que sobe quatro lances de escada nem contemplamos cada contração muscular sincronizada que nos eleva do térreo até o segundo andar. A competência é discreta por natureza.

A incompetência, por outro lado, é costumeiramente bem chamativa e justamente por isso incomoda. Incomoda pela exposição mais do que pela perda de competência per se.

O sujeito que tropeça em um desnível de calçamento faz-nos rir porque escancara sua desatenção à básica tarefa de caminhar. O fracasso é um dos raros momentos em que realmente enxergamos a maquinaria funcionando - ou deixando de funcionar.

Mas enxergar a maquinaria não ensina a aprimorá-la. Não são poucas as pessoas que tropeçam sempre no mesmo desnível e em todas as vezes se surpreendem com isso, com a mesma honestidade. É mais confortável entender o caráter anedótico do evento e simplesmente voltar correndo para a invisibilidade.

A dor ajuda, já que depois de martelar um dedo nossa atenção facilmente se triplica pelo restante da atividade. O problema é que ela geralmente tem prazo. Ela passa.

Curioso... É como se a vida nos dissesse que, para nos lembrarmos de um fracasso e aprendermos com ele, seria preciso que continuasse doendo sempre um pouco. Talvez seja para isso que as marcas de marteladas existem. Não para lembrar do erro, mas para manter o martelo visível por mais algum tempo.

Rodrigo Prado Escrevo apenas por hobby. Fora daqui sou médico especialista em clínica e fundador do Dose de Clínica. Conheça mais sobre mim clicando aqui.

Sobre a escrita

Não sei se puritano seria exatamente a palavra adequada para descrever o jeito que pretendo escrever aqui. Confesso que apenas me incomoda perceber os trejeitos e termos de texto de IA em tudo hoje em dia. O objetivo desse blog é exatamente o de tentar conservar, ao menos para mim, uma escrita mais pura.

Todos os meus textos aqui são escritos em editores sem correção automática ou interface de IA, como o One Markdown ou o Obsidian a depender do computador que estou utilizando. Após o texto pronto, eu mesmo o releio algumas vezes em busca de melhorias na estrutura das frases ou correções gramaticais óbvias. Quando tenho dúvida na escrita de alguma palavra, procuro no Google. Antigamente apareciam páginas de dicionários nas respostas, mas hoje a própria IA da plataforma responde antes de qualquer resultado.

Enfim.

Entenda, com isso, que os textos aqui podem não ser isentos de erros de concordância ou de gramática. Nem mesmo de grafia das palavras. Eu podia jurar, por exemplo, que o certo era "aficcionado", mas aparentemente o correto é "aficionado".

Além disso, ressalto que tudo que escrevo aqui é opinião minha. Não falo em nome de nenhuma instituição ou empresa onde trabalho ou já trabalhei. E, mesmo sendo médico, nada do que estiver aqui deve ser tomado como orientação médica.

Com esses detalhes em mente, espero que aproveite a leitura.